Radiofrequência não ablativa em ginecologia: mecanismo de ação e efeitos no colágeno

08 set. de 2026
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Radiofrequência não ablativa em ginecologia: mecanismo de ação e efeitos no colágeno

Radiofrequência não ablativa em ginecologia: mecanismo de ação e efeitos no colágeno

Resumo em 30 segundos

  • Radiofrequência não ablativa aquece o tecido pela resistência dele próprio, sem romper o epitélio e sem depender de cromóforo, ao contrário do laser.
  • A faixa alvo relatada nos ensaios clínicos publicados entre 2021 e 2026 é consistente: 40 a 45 graus, mantida sob monitoramento durante a sessão.
  • O calor nessa faixa promove contração imediata do colágeno existente e, em seguida, ativa fibroblastos, que produzem colágeno e elastina novos.
  • Meta-análise de 8 ensaios randomizados publicada no International Urogynecology Journal em 2026 associou a radiofrequência a melhora de função sexual maior que a do estrogênio vaginal, com p igual a 0,0005, e equivalente à do laser.
  • O perfil de segurança relatado é favorável, com eventos leves, mas a revisão sistemática da Menopause de 2025 registra que o relato de eventos adversos ainda é limitado entre os estudos.

Na conversa de corredor, radiofrequência não ablativa costuma virar sinônimo de qualquer aparelho que esquenta. Na prática, o que separa um protocolo que funciona de um que só aquece é entender onde o calor age, em que temperatura, e o que o tecido faz depois.

Este texto trata do mecanismo: como a radiofrequência não ablativa gera calor, o que acontece no colágeno a partir daí, o que as biópsias mostram e o que a evidência clínica sustenta hoje.

O que é radiofrequência não ablativa, e o que ela não é

Diagrama comparando radiofrequência não ablativa, fracionada microablativa e cirúrgica em corte esquemático de tecido

Radiofrequência não ablativa é a aplicação de corrente alternada de alta frequência que aquece o tecido pela resistência dele próprio, de forma controlada e sem romper o epitélio, com o objetivo de estimular a resposta de reparo.

 

A diferença para o laser está na origem do calor. O laser depende de cromóforos, moléculas que absorvem um comprimento de onda específico. A radiofrequência não tem afinidade por cromóforo nenhum: ela emite ondas eletromagnéticas e o aquecimento depende apenas das propriedades elétricas do tecido alvo. A corrente encontra resistência, e essa resistência vira calor, o que se chama efeito Joule.

Vale separar três coisas que costumam ser chamadas pelo mesmo nome:

⦁ Não ablativa: o epitélio permanece íntegro. O calor é entregue à camada logo abaixo da mucosa, sem criar ferida.

⦁ Fracionada microablativa: entrega a energia em microcolunas, criando pontos de ablação cercados por tecido intacto. É outra modalidade, com outro perfil de estudo.

⦁ Cirúrgica: usa radiofrequência para cortar e coagular. Mesma física, finalidade completamente diferente.

Dentro da radiofrequência não ablativa ainda existem configurações de eletrodo, monopolar, bipolar e multipolar, e o modo capacitivo e resistivo. As frequências descritas nos estudos de ginecologia variam bastante, de 448 kHz no ensaio com radiofrequência monopolar capacitiva e resistiva a 1 MHz no estudo piloto publicado no BMC Women's Health em 2021.

A janela térmica da radiofrequência não ablativa: por que 40 a 45 graus

Escala de temperatura com a faixa terapêutica de 40 a 45 graus destacada e marcador de 41 graus do estudo piloto de 2021

Este é o número que mais importa, e ele é consistente entre os ensaios publicados. O estudo de Pinheiro e colaboradores, no BMC Women's Health em 2021, trabalhou com alvo de 41 graus. O ensaio de Fu e colaboradores, no mesmo periódico em 2023, com 102 mulheres e seguimento de 12 meses, usou temperatura controlada entre 40 e 45 graus. O ensaio randomizado com grupo sham publicado na Menopause em 2026 adotou a mesma faixa.

O que acontece nessa faixa está descrito assim na revisão de Luo e colaboradores, publicada na Gynecology and Pelvic Medicine em 2025:

“Eleva a temperatura dos tecidos alvo a 40 a 45 graus, induzindo contração imediata do colágeno existente. Em seguida, ativa fibroblastos para promover a síntese e a remodelação de colágeno novo.”

Luo et al., Gynecology and Pelvic Medicine, 2025. Tradução livre. No original: “it raises the temperature of target tissues to 40-45 ℃, inducing immediate contraction of existing collagen. Subsequently, it activates fibroblasts to promote the synthesis and remodeling of new collagen.”

Repare que são dois efeitos em tempos diferentes. A contração é imediata e explica parte da sensação relatada logo após a sessão. A neocolagênese vem depois, e é ela que sustenta o resultado ao longo das semanas.

Uma ressalva honesta, porque ela costuma ser atropelada em material comercial. Os limiares exatos de desnaturação e de necrose em tecido vaginal não estão bem estabelecidos na literatura publicada. Circulam números específicos em textos sem revisão por pares, mas não localizamos estudo que os sustente para essa aplicação. O que está documentado é a faixa terapêutica usada nos ensaios, e o fato de que ela é mantida sob monitoramento como parâmetro central de protocolo e de segurança.

O que acontece no colágeno depois do estímulo

O calor controlado desencadeia uma cascata, e cada etapa tem nome:

Etapa

O que acontece

Estímulo térmico

O tecido atinge a faixa alvo e o colágeno existente sofre contração imediata.

Sinalização

Proteínas de choque térmico, interleucinas e fator transformador de crescimento são ativadas

Recrutamento

Fibroblastos migram para a região estimulada

Síntese

Produção de colágeno e elastina novos, descrita como neocolagênese e neoelastogênese.

Vascularização

Formação de novos vasos, descrita como neoangiogênese

Sobre as proteínas de choque térmico, a HSP47 é uma proteína guia específica do colágeno, e sua elevação após hipertermia em fibroblastos foi documentada no British Journal of Cancer em 1997, por Verrico e Moore, tanto em nível de transcrição quanto de tradução. É um trabalho antigo e fora da ginecologia, mas é a base mecanística que os artigos da área citam.

Nos estudos de ginecologia, a descrição é convergente. O piloto do BMC Women's Health de 2021 fala em processo inflamatório agudo com neocolagênese e neoelastogênese a partir da desnaturação de fibras colágenas e ativação de fibroblastos. Revisão publicada na Revista ABPTGIC em 2022 descreve o estímulo térmico ativando proteínas de choque térmico, interleucinas e fator transformador de crescimento, com migração de fibroblastos responsáveis pela síntese de colágeno e elastina.

Aqui vale mais uma ressalva. Não localizamos, na literatura acessível, um número confiável para o tempo até o pico de neocolagênese em tecido vaginal. Prazos citados em material de divulgação não têm respaldo que consigamos rastrear. O que existe é dado de durabilidade clínica, que é outra coisa.

O que as biópsias mostram

Estudo descritivo do grupo da UNIFESP, publicado por Nogueira e colaboradores na Photobiomodulation, Photomedicine, and Laser Surgery em 2024, comparou laser fracionado de CO2, radiofrequência e estrogênio tópico na síndrome geniturinária da menopausa, com 71 mulheres recrutadas e 48 concluindo o protocolo, sendo 15 no braço de radiofrequência. Atrofia vaginal histológica foi identificada em 6 amostras antes do tratamento, ou 12,5% do total, e os autores registram que, depois da intervenção, todos os parâmetros histológicos foram normalizados.

É um achado relevante e precisa ser lido pelo que ele é. A amostra por braço é pequena, o desenho é descritivo, e a normalização relatada vale para o conjunto dos parâmetros avaliados, não para uma medida isolada de densidade de colágeno. Quem procura, na literatura de tecido vaginal, o mesmo nível de detalhe histológico que existe para pele, ainda não encontra.

O que a evidência clínica sustenta

A publicação mais forte para essa modalidade é recente. Meta-análise de Lumowa e colaboradores, no International Urogynecology Journal em 2026, reuniu 8 ensaios randomizados comparando radiofrequência a outras modalidades na síndrome geniturinária da menopausa.

“A terapia com radiofrequência foi associada a melhora significativamente maior da função sexual que o estrogênio vaginal e que placebo ou hidratante, mas comparável à terapia com laser. Os desfechos de saúde vaginal foram semelhantes entre todos os comparadores. Os eventos adversos foram exclusivamente leves, o que sustenta um perfil de segurança aceitável.”

Lumowa, Kurniawati e Hardianto, International Urogynecology Journal, 2026. Tradução livre. No original: “Radiofrequency therapy was associated with significantly greater improvement in sexual function than vaginal estrogen and placebo/moisturizer, but comparable with laser therapy. Vaginal health outcomes were similar across all comparators. Adverse events were exclusively mild, supporting an acceptable safety profile.”

Os valores no Índice de Função Sexual Feminina foram p igual a 0,0005 na comparação com estrogênio vaginal, p igual a 0,01 contra placebo ou hidratante, e p igual a 0,81 contra laser, ou seja, sem diferença entre as duas tecnologias.

No mesmo período, o ensaio randomizado com grupo sham publicado na Menopause em 2026 acompanhou 62 mulheres, 32 tratadas com radiofrequência monopolar capacitiva e resistiva e 30 no sham, com seis sessões semanais. O FSFI subiu 5,86 pontos contra 1,33 no sham logo após o tratamento, e o Índice de Saúde Vaginal subiu 4,75 contra 0,03 negativo, ambos com p menor que 0,001. Em 12 semanas, a diferença se manteve, com 6,90 contra 0,66 negativo no Índice de Saúde Vaginal. Não houve eventos adversos nem alteração significativa da citologia estrogênica.

E aqui entra a contraparte, que precisa estar no texto. A revisão sistemática de Zerzan e colaboradores, na Menopause em 2025, que analisou 32 estudos sobre intervenções baseadas em energia, classifica a evidência do conjunto como incerta e assinala que o relato de eventos adversos permanece limitado entre os ensaios. Perfil de segurança favorável nos estudos publicados não é o mesmo que segurança bem estabelecida, e a diferença entre as duas frases importa na conversa com a paciente.

Estudo

Ano

Desenho

Principal achado

Lumowa et al., Int Urogynecol J

2026

Meta-análise de 8 ensaios randomizados

Função sexual melhor que estrogênio vaginal, p igual a 0,0005, e equivalente ao laser, p igual a 0,81. Eventos adversos exclusivamente leves

Quezada-Bascuñán et al., Menopause

2026

Ensaio randomizado com grupo sham, 62 participantes

FSFI 5,86 contra 1,33 e Índice de Saúde Vaginal 4,75 contra 0,03 negativo, com p menor que 0,001. Sem eventos adversos

Nogueira et al., Photobiomodul Photomed Laser Surg

2024

Estudo descritivo com histologia, 48 concluintes

Parâmetros histológicos normalizados após a intervenção. Amostra pequena por braço

Fu et al., BMC Women's Health

2023

Coorte de 102 mulheres, seguimento de 12 meses

Temperatura controlada entre 40 e 45 graus, com melhora em função sexual e qualidade de vida

Zerzan et al., Menopause

2025

Revisão sistemática de 32 estudos

Evidência do conjunto classificada como incerta e relato de eventos adversos limitado entre os ensaios

O que isso muda na escolha do equipamento de radiofrequência não ablativa

Se a faixa terapêutica é estreita e o efeito depende de manter o tecido dentro dela pelo tempo certo, a variável de compra deixa de ser potência e passa a ser controle. A pergunta para o fabricante é direta: como o sistema mede e mantém a temperatura durante a aplicação, e o que ele faz quando a faixa alvo é ultrapassada.

As plataformas Spectra Medic e Kolpos, da Tonemed, trazem o módulo de radiofrequência ginecológica não ablativa e trabalham com o Sistema ATP, sigla de Automated Thermal Permanence, voltado ao controle automático de tempo, potência e temperatura durante a aplicação. É a resposta de engenharia para o problema descrito acima, e o que permite chamar de protocolo aquilo que a equipe repete entre pacientes.

Próximos passos

Antes de definir o protocolo, defina o desfecho. Se a proposta é melhorar função sexual, o instrumento é o FSFI. Se é trofismo da mucosa, é o Índice de Saúde Vaginal. Aplique na linha de base e repita o mesmo no seguimento, porque é isso que transforma impressão clínica em resultado comparável.

Para o contexto mais amplo dessa linha de tratamento, veja o conteúdo relacionado sobre ginecologia regenerativa e sobre síndrome geniturinária da menopausa. Para discutir parâmetros, especificações técnicas e registro dos equipamentos aplicados à sua realidade clínica, a equipe técnica da Tonemed está à disposição.

Revisão técnica

Silene Bazi Ribeiro | CREFITO 89479
Fisioterapeuta Dermatofuncional e pós graduanda em Fisioterapia Pélvica

Referências

  1. Lumowa FSR, Kurniawati EM, Hardianto G. Efficacy and safety of radiofrequency as a treatment modality for genitourinary syndrome of menopause: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. International Urogynecology Journal, 2026. DOI 10.1007/s00192-026-06818-x. Acessar fonte
  2. Quezada-Bascuñán C, Ferri-Morales A, Martínez-Vizcaíno V, Gallego-Gómez C, Torres-Costoso A, Lirio-Romero C. Efficacy of nonablative radiofrequency on sexual function in postmenopausal women: a randomized clinical trial. Menopause, 2026;33(7):810-819. DOI 10.1097/GME.0000000000002743. Acessar fonte
  3. Zerzan NL, Greer N, Ullman KE, et al. Energy-based interventions for genitourinary syndrome of menopause: a systematic review of randomized controlled trials and prospective observational studies. Menopause, 2025;32(2):176-183. DOI 10.1097/GME.0000000000002465. Acessar fonte
  4. Nogueira MCC, Bianchi-Ferraro AMHM, Campos MLP, et al. Fractional and microablative CO2 laser and radiofrequency in the treatment of genitourinary syndrome of menopause: a descriptive study. Photobiomodulation, Photomedicine, and Laser Surgery, 2024;42(6):414-421. DOI 10.1089/pho.2023.0110. Acessar fonte
  5. Luo C, Wei D, Yu X, Chen Y. Application progress of radiofrequency therapy in pelvic floor disorders: a narrative review focusing on randomized controlled trials. Gynecology and Pelvic Medicine, 2025;8. DOI 10.21037/gpm-25-36. Acessar fonte
  6. Fu L, Long S, Li Q, et al. The efficacy and safety of temperature controlled dual-mode radiofrequency in women with vaginal laxity. BMC Women's Health, 2023;23:121. DOI 10.1186/s12905-023-02261-y. Acessar fonte
  7. Pinheiro C, Costa T, Amorim de Jesus R, et al. Intravaginal nonablative radiofrequency in the treatment of genitourinary syndrome of menopause symptoms: a single-arm pilot study. BMC Women's Health, 2021;21. DOI 10.1186/s12905-021-01518-8. Acessar fonte
  8. Verrico AK, Moore JV. Expression of the collagen-related heat shock protein HSP47 in fibroblasts treated with hyperthermia or photodynamic therapy. British Journal of Cancer, 1997;76(6):719-724. DOI 10.1038/bjc.1997.452. Acessar fonte
  9. Kamilos MF. Radiofrequência microfracionada na síndrome genitourinária. Revista ABPTGIC, 2022;6(2). Acessar fonte 
  10. Torre PA, Fialho SCAV, Guimarães ICCV, et al. Efficacy and safety of fractional microablative radiofrequency versus topical estriol in treating genitourinary syndrome of menopause: a pilot study. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 2026. DOI 10.1002/ijgo.70563. Acessar fonte