A paciente diz que está ressecada. Que a relação passou a doer. Que anda indo ao banheiro mais vezes do que antes. Cada queixa parece pequena sozinha, e é comum que cada uma seja tratada separada, por profissionais diferentes, às vezes em anos diferentes.
O quadro que junta as três tem nome desde 2014, síndrome geniturinária da menopausa, e segue sendo diagnosticado bem menos do que existe. Este texto trata do que ele é, de como fechar o diagnóstico na consulta, e do que cada linha de tratamento realmente sustenta em evidência, incluindo o que mudou em 2025 e 2026.
O que é a síndrome geniturinária da menopausa, e por que o nome mudou
O termo saiu de uma conferência de consenso de 2013, publicada por Portman e Gass na Maturitas em 2014, com patrocínio conjunto da International Society for the Study of Women's Sexual Health e da North American Menopause Society. A proposta era aposentar atrofia vulvovaginal por dois motivos: o nome antigo deixava os sintomas urinários de fora, e carregava uma conotação ruim para dizer em voz alta no consultório.
A definição organiza tudo em três domínios, e vale ter os três em mente na anamnese:
- Genital: secura, ardor e irritação.
- Sexual: falta de lubrificação, desconforto ou dor na relação.
- Urinário: urgência, ardor ao urinar e infecção urinária de repetição.
Duas condições fazem parte da definição e costumam passar batido. O sintoma precisa incomodar, e precisa não ter outra explicação. Sinal de atrofia no exame, em paciente sem queixa, não fecha a síndrome. E queixa com outra causa provável também não.
Por que a queixa não chega até o médico
O posicionamento da Menopause Society de 2020 estima que a condição atinja de 27% a 84% das mulheres depois da menopausa. A faixa é larga porque cada estudo define e mede de um jeito. O que os levantamentos mostram com mais consistência não é a prevalência, é o silêncio.
No REVIVE, publicado por Kingsberg e colaboradores no Journal of Sexual Medicine em 2013, 8.081 mulheres responderam, e 38% relataram sintomas nos 30 dias anteriores. Quase metade nunca tinha discutido isso com um profissional. Entre as que discutiram, o médico foi quem puxou o assunto em apenas 13% das vezes. O Women's EMPOWER, de 2017, com 1.858 participantes, encontrou algo ainda mais desconfortável: só 19% sabiam que aquilo era uma condição médica reconhecida.
A leitura é direta. A subnotificação não é problema da paciente, é problema de anamnese. Uma pergunta objetiva na consulta de rotina muda o número: você tem notado ressecamento, ardor, dor na relação ou mudança no hábito urinário? Custa quinze segundos, e é o que separa a paciente diagnosticada da que vai seguir achando que é da idade. O conteúdo relacionado sobre subnotificação da queixa no consultório aprofunda esse ponto.
Como fechar o diagnóstico de síndrome geniturinária da menopausa
O diagnóstico é clínico. A diretriz conjunta da American Urological Association, da SUFU e da AUGS, publicada no Journal of Urology em 2025, é explícita: achados no exame físico não são obrigatórios para fechá-lo. Ainda assim, saber o que procurar organiza a consulta. Na vagina, palidez, perda de umidade e de elasticidade, apagamento das rugas. Na vulva, lábios menores mais finos, vestíbulo pálido, retração do capuz clitoriano. No trato urinário, meato uretral proeminente.
Exames de rotina não entram. Urinálise, cultura e dosagem de estradiol no sangue não fazem parte da investigação padrão, e pedir estradiol para confirmar a síndrome é gasto sem retorno.
Sobre os instrumentos, vale separar o que ajuda na consulta do que existe para padronizar pesquisa:
Antes de creditar tudo à menopausa, exclua o que pode estar por trás: líquen escleroso, líquen plano erosivo, dermatite de contato e vaginite inflamatória descamativa; candidíase, vaginose e tricomoníase; neoplasia intraepitelial vulvar e malignidade; vulvodínia. Lesão branca, placa, fissura que não cicatriza ou área de aspecto atípico pede biópsia, não teste terapêutico. O conteúdo relacionado sobre investigação da dor na relação traz o roteiro completo de diagnóstico diferencial.
Tratamento da síndrome geniturinária da menopausa: o que a evidência sustenta em cada linha
O posicionamento da Menopause Society de 2020 é direto sobre por onde começar:
Vale distinguir os dois para a paciente, porque o resultado depende disso. Lubrificante é para o ato, reduz o atrito na hora. Hidratante é de uso regular, várias vezes por semana, e trabalha o sintoma do dia a dia.
Um dado incomoda e merece estar aqui. O ensaio MsFLASH, no JAMA Internal Medicine em 2018, randomizou 302 mulheres em três braços por 12 semanas: estradiol vaginal, hidratante, e duplo placebo. A redução do sintoma mais incômodo foi de 1,4 ponto com estradiol, 1,2 com hidratante e 1,3 com placebo, sem diferença significativa entre os grupos. O achado não diz que nada funciona. Diz que o gel placebo também melhorou os sintomas, e bastante, o que reforça a orientação de uso contínuo e explica por que muita paciente melhora antes de qualquer hormônio.
Persistindo o sintoma, entra o estrogênio vaginal em baixa dose. A revisão Cochrane de 2016 reuniu 30 ensaios e 6.235 mulheres: todas as apresentações superaram placebo, sem diferença relevante entre creme, comprimido e anel. E aqui está a novidade que muda a conversa no consultório. Em 10 de novembro de 2025, o FDA anunciou a retirada das tarjas pretas dos rótulos da terapia hormonal da menopausa, incluindo o estrogênio vaginal de baixa dose. A Menopause Society apoiou a decisão no mesmo dia para essa apresentação, com o argumento de que a tarja barrava o uso de uma terapia segura e eficaz, e manteve a ressalva de avaliação individual para o estrogênio sistêmico. A medida gerou debate, e vale acompanhar.
Em sobreviventes de câncer de mama, a orientação do ACOG é de decisão compartilhada: se o não hormonal não resolveu, o estrogênio vaginal em baixa dose pode ser usado, inclusive em quem usa tamoxifeno. Para quem está em inibidor de aromatase, a decisão envolve paciente, ginecologista e oncologista.
O quadro abaixo resume as linhas disponíveis e o que sustenta cada uma:
Duas ressalvas brasileiras. Prasterona e ospemifeno estão em toda diretriz internacional, mas não localizamos registro na ANVISA nem venda regular aqui. E o promestrieno, largamente usado no país, tem poucos ensaios randomizados depois de mais de quarenta anos de uso, como registra revisão publicada na Femina em 2020. Uso consagrado não é sinônimo de evidência forte.
Na linha não hormonal por energia, o posicionamento da Menopause Society de 2020 pedia estudos controlados por sham antes de recomendar uso de rotina. O campo se moveu nessa direção. Ensaio randomizado com grupo sham publicado na Menopause em 2026, com 62 mulheres e seis sessões semanais de radiofrequência monopolar capacitiva e resistiva, registrou ganho de 5,86 pontos no FSFI contra 1,33 no sham, e de 4,75 no Índice de Saúde Vaginal contra 0,03 negativo, com p menor que 0,001 e sem eventos adversos. A condição pedida em 2020 começou a ser atendida para a radiofrequência, com amostra pequena e seguimento curto, e ainda não foi para o laser vaginal.

Da evidência ao equipamento: o que olhar na plataforma
Quem decide incorporar essa linha precisa traduzir o que os estudos usaram para o que o aparelho entrega.
Duas variáveis separam um serviço com resultado reprodutível de um que depende da sorte.
A primeira é o controle da temperatura, porque a resposta do tecido acontece numa faixa estreita: abaixo dela não há efeito biológico, acima dela vem cicatriz. A segunda é a documentação, porque sem instrumento validado aplicado antes e depois não há como saber se funcionou naquela paciente.
O Spectra Medic reúne radiofrequência ginecológica não ablativa, que é a modalidade avaliada no ensaio com sham citado acima, além de radiofrequência fracionada, fotobiomodulação por LED e jato de plasma.
O Kolpos mantém esses módulos e acrescenta a radiofrequência cirúrgica do sistema SpaceFusion. As duas plataformas da Tonemed trabalham com o Sistema ATP, sigla de Automated Thermal Permanence, voltado ao controle automático de tempo, potência e temperatura durante a aplicação, que é a resposta de engenharia para a primeira das duas variáveis acima.
Próximos passos
A síndrome geniturinária da menopausa é crônica e progressiva, e o tratamento precisa continuar para o efeito se manter. Combine isso com a paciente já na primeira consulta: a proposta é manutenção, não um ciclo com data para acabar. Comece por lubrificante e hidratante, explicando a diferença de uso, e reavalie com o mesmo instrumento que você usou na linha de base. A diretriz de 2025 recomenda reavaliar após o início do tratamento sem fixar prazo, e registra que os sintomas começam a melhorar entre um e dois meses.
A escolha da linha depende de gravidade, contraindicação e preferência, e a paciente com câncer de mama ou com recusa ao hormônio é onde o repertório do consultório faz mais diferença. Para aprofundar as alternativas não hormonais, veja o conteúdo relacionado sobre ginecologia regenerativa. Para discutir protocolo, especificações técnicas e registro dos equipamentos, a equipe técnica da Tonemed está à disposição.
Revisão técnica
Silene Bazi Ribeiro | CREFITO 89479
Fisioterapeuta Dermatofuncional e pós graduanda em Fisioterapia Pélvica
Referências
- Portman DJ, Gass ML; Vulvovaginal Atrophy Terminology Consensus Conference Panel. Genitourinary syndrome of menopause: new terminology for vulvovaginal atrophy from the International Society for the Study of Women's Sexual Health and the North American Menopause Society. Maturitas, 2014;79(3):349-354. DOI 10.1016/j.maturitas.2014.07.013. Acessar fonte
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