Síndrome geniturinária da menopausa: diagnóstico e abordagens terapêuticas atuais

25 ago. de 2026
Compartilhar
Síndrome geniturinária da menopausa: diagnóstico e abordagens terapêuticas atuais

Resumo em 30 segundos

  • Síndrome geniturinária da menopausa é o nome que substituiu atrofia vulvovaginal em 2014, e ele é mais largo: cobre também os sintomas urinários e os sexuais, não só o ressecamento.
  • Atinge de 27% a 84% das mulheres depois da menopausa. No survey REVIVE, quase metade das que tinham sintomas nunca tinha falado sobre isso com um profissional de saúde.
  • O diagnóstico é clínico. A diretriz da AUA, SUFU e AUGS de 2025 diz que achados no exame não são obrigatórios para fechá-lo.
  • A primeira linha, pela Menopause Society, são lubrificantes no ato sexual e hidratantes de uso regular. Se o sintoma persiste, entram estrogênio vaginal em baixa dose, DHEA vaginal e ospemifeno.
  • Em 10 de novembro de 2025 o FDA retirou a tarja preta dos rótulos da terapia hormonal da menopausa, incluindo o estrogênio vaginal de baixa dose.

A paciente diz que está ressecada. Que a relação passou a doer. Que anda indo ao banheiro mais vezes do que antes. Cada queixa parece pequena sozinha, e é comum que cada uma seja tratada separada, por profissionais diferentes, às vezes em anos diferentes.

O quadro que junta as três tem nome desde 2014, síndrome geniturinária da menopausa, e segue sendo diagnosticado bem menos do que existe. Este texto trata do que ele é, de como fechar o diagnóstico na consulta, e do que cada linha de tratamento realmente sustenta em evidência, incluindo o que mudou em 2025 e 2026.

O que é a síndrome geniturinária da menopausa, e por que o nome mudou

Síndrome geniturinária da menopausa é o conjunto de sinais e sintomas ligados à queda de estrogênio que afeta lábios, clitóris, vestíbulo, vagina, uretra e bexiga, desde que incomodem a paciente e não tenham outra explicação.

O termo saiu de uma conferência de consenso de 2013, publicada por Portman e Gass na Maturitas em 2014, com patrocínio conjunto da International Society for the Study of Women's Sexual Health e da North American Menopause Society. A proposta era aposentar atrofia vulvovaginal por dois motivos: o nome antigo deixava os sintomas urinários de fora, e carregava uma conotação ruim para dizer em voz alta no consultório.

A definição organiza tudo em três domínios, e vale ter os três em mente na anamnese:

  • Genital: secura, ardor e irritação.
  • Sexual: falta de lubrificação, desconforto ou dor na relação.
  • Urinário: urgência, ardor ao urinar e infecção urinária de repetição.

Duas condições fazem parte da definição e costumam passar batido. O sintoma precisa incomodar, e precisa não ter outra explicação. Sinal de atrofia no exame, em paciente sem queixa, não fecha a síndrome. E queixa com outra causa provável também não.

Por que a queixa não chega até o médico

O posicionamento da Menopause Society de 2020 estima que a condição atinja de 27% a 84% das mulheres depois da menopausa. A faixa é larga porque cada estudo define e mede de um jeito. O que os levantamentos mostram com mais consistência não é a prevalência, é o silêncio.

No REVIVE, publicado por Kingsberg e colaboradores no Journal of Sexual Medicine em 2013, 8.081 mulheres responderam, e 38% relataram sintomas nos 30 dias anteriores. Quase metade nunca tinha discutido isso com um profissional. Entre as que discutiram, o médico foi quem puxou o assunto em apenas 13% das vezes. O Women's EMPOWER, de 2017, com 1.858 participantes, encontrou algo ainda mais desconfortável: só 19% sabiam que aquilo era uma condição médica reconhecida.

A leitura é direta. A subnotificação não é problema da paciente, é problema de anamnese. Uma pergunta objetiva na consulta de rotina muda o número: você tem notado ressecamento, ardor, dor na relação ou mudança no hábito urinário? Custa quinze segundos, e é o que separa a paciente diagnosticada da que vai seguir achando que é da idade. O conteúdo relacionado sobre subnotificação da queixa no consultório aprofunda esse ponto.

 

Como fechar o diagnóstico de síndrome geniturinária da menopausa

O diagnóstico é clínico. A diretriz conjunta da American Urological Association, da SUFU e da AUGS, publicada no Journal of Urology em 2025, é explícita: achados no exame físico não são obrigatórios para fechá-lo. Ainda assim, saber o que procurar organiza a consulta. Na vagina, palidez, perda de umidade e de elasticidade, apagamento das rugas. Na vulva, lábios menores mais finos, vestíbulo pálido, retração do capuz clitoriano. No trato urinário, meato uretral proeminente.

Exames de rotina não entram. Urinálise, cultura e dosagem de estradiol no sangue não fazem parte da investigação padrão, e pedir estradiol para confirmar a síndrome é gasto sem retorno.

Sobre os instrumentos, vale separar o que ajuda na consulta do que existe para padronizar pesquisa:

Instrumento

O que mede

Status na prática

Questionários validados (DIVA, VSQ, Cervantes-GSM)

Sintomas e impacto funcional relatados pela paciente

Recomendados. Citados pela diretriz AUA, SUFU e AUGS de 2025

pH vaginal

Elevação acima de 5, por perda de lactobacilos

Complementar, útil no acompanhamento. Não é essencial

Índice de maturação vaginal

Proporção de células parabasais, intermediárias e superficiais

Apoio e pesquisa. Útil para avaliar resposta ao tratamento

Índice de Saúde Vaginal (VHI)

Escore composto de secreção, pH, elasticidade, integridade e umidade

Mais usado como escore de gravidade em estudos do que na rotina

FSFI

Função sexual, não específico de SGM

Usado em pesquisa e em avaliação de função sexual

Estradiol sérico, urinálise, cultura

Nada de específico para o diagnóstico

Não indicados na investigação de rotina

Antes de creditar tudo à menopausa, exclua o que pode estar por trás: líquen escleroso, líquen plano erosivo, dermatite de contato e vaginite inflamatória descamativa; candidíase, vaginose e tricomoníase; neoplasia intraepitelial vulvar e malignidade; vulvodínia. Lesão branca, placa, fissura que não cicatriza ou área de aspecto atípico pede biópsia, não teste terapêutico. O conteúdo relacionado sobre investigação da dor na relação traz o roteiro completo de diagnóstico diferencial.

Tratamento da síndrome geniturinária da menopausa: o que a evidência sustenta em cada linha

O posicionamento da Menopause Society de 2020 é direto sobre por onde começar:

“As terapias de primeira linha para mulheres com SGM incluem lubrificantes não hormonais durante a atividade sexual e uso regular de hidratantes vaginais de ação prolongada.”

The North American Menopause Society, Menopause, 2020. Tradução livre. No original: “First-line therapies for women with GSM include nonhormone lubricants with sexual activity and regular use of long-acting vaginal moisturizers.”

Vale distinguir os dois para a paciente, porque o resultado depende disso. Lubrificante é para o ato, reduz o atrito na hora. Hidratante é de uso regular, várias vezes por semana, e trabalha o sintoma do dia a dia.

Um dado incomoda e merece estar aqui. O ensaio MsFLASH, no JAMA Internal Medicine em 2018, randomizou 302 mulheres em três braços por 12 semanas: estradiol vaginal, hidratante, e duplo placebo. A redução do sintoma mais incômodo foi de 1,4 ponto com estradiol, 1,2 com hidratante e 1,3 com placebo, sem diferença significativa entre os grupos. O achado não diz que nada funciona. Diz que o gel placebo também melhorou os sintomas, e bastante, o que reforça a orientação de uso contínuo e explica por que muita paciente melhora antes de qualquer hormônio.

Persistindo o sintoma, entra o estrogênio vaginal em baixa dose. A revisão Cochrane de 2016 reuniu 30 ensaios e 6.235 mulheres: todas as apresentações superaram placebo, sem diferença relevante entre creme, comprimido e anel. E aqui está a novidade que muda a conversa no consultório. Em 10 de novembro de 2025, o FDA anunciou a retirada das tarjas pretas dos rótulos da terapia hormonal da menopausa, incluindo o estrogênio vaginal de baixa dose. A Menopause Society apoiou a decisão no mesmo dia para essa apresentação, com o argumento de que a tarja barrava o uso de uma terapia segura e eficaz, e manteve a ressalva de avaliação individual para o estrogênio sistêmico. A medida gerou debate, e vale acompanhar.

Em sobreviventes de câncer de mama, a orientação do ACOG é de decisão compartilhada: se o não hormonal não resolveu, o estrogênio vaginal em baixa dose pode ser usado, inclusive em quem usa tamoxifeno. Para quem está em inibidor de aromatase, a decisão envolve paciente, ginecologista e oncologista.

O quadro abaixo resume as linhas disponíveis e o que sustenta cada uma:

Linha

Evidência principal

Observação para a prática

Lubrificantes e hidratantes

Primeira linha pelo posicionamento da Menopause Society de 2020. Não inferioridade frente a estriol em sintomas leves e moderados (PLOS ONE, 2022)

Explique a diferença de uso. Lubrificante no ato, hidratante em uso regular

Estrogênio vaginal em baixa dose

Cochrane 2016, 30 ensaios e 6.235 mulheres. Superior a placebo, sem diferença entre apresentações

Tarja preta retirada pelo FDA em novembro de 2025. Em câncer de mama, decisão compartilhada

Prasterona (DHEA vaginal)

Benefício de curto prazo em revisão do Annals of Internal Medicine, 2024

Registro na ANVISA não confirmado. Verifique disponibilidade antes de prescrever

Ospemifeno

Benefício de curto prazo na mesma revisão de 2024

Registro na ANVISA não confirmado

Promestrieno e estriol

Uso consagrado no Brasil. Promestrieno com poucos ensaios randomizados após 40 anos de uso

O estriol tem mais evidência publicada para apresentar à paciente

Radiofrequência não ablativa

Ensaio randomizado com sham na Menopause, 2026, com 62 participantes

Amostra pequena e seguimento curto. Alternativa quando o hormônio está contraindicado

Laser vaginal

Achados negativos contra sham na revisão da Menopause de 2025

Sociedades pedem cautela fora de ensaio clínico

Duas ressalvas brasileiras. Prasterona e ospemifeno estão em toda diretriz internacional, mas não localizamos registro na ANVISA nem venda regular aqui. E o promestrieno, largamente usado no país, tem poucos ensaios randomizados depois de mais de quarenta anos de uso, como registra revisão publicada na Femina em 2020. Uso consagrado não é sinônimo de evidência forte.

Na linha não hormonal por energia, o posicionamento da Menopause Society de 2020 pedia estudos controlados por sham antes de recomendar uso de rotina. O campo se moveu nessa direção. Ensaio randomizado com grupo sham publicado na Menopause em 2026, com 62 mulheres e seis sessões semanais de radiofrequência monopolar capacitiva e resistiva, registrou ganho de 5,86 pontos no FSFI contra 1,33 no sham, e de 4,75 no Índice de Saúde Vaginal contra 0,03 negativo, com p menor que 0,001 e sem eventos adversos. A condição pedida em 2020 começou a ser atendida para a radiofrequência, com amostra pequena e seguimento curto, e ainda não foi para o laser vaginal.

Diagrama dos três domínios da síndrome geniturinária da menopausa: genital, sexual e urinário, com a condição de incomodar a paciente e não ter outra explicação

Da evidência ao equipamento: o que olhar na plataforma

Quem decide incorporar essa linha precisa traduzir o que os estudos usaram para o que o aparelho entrega.

Duas variáveis separam um serviço com resultado reprodutível de um que depende da sorte.

A primeira é o controle da temperatura, porque a resposta do tecido acontece numa faixa estreita: abaixo dela não há efeito biológico, acima dela vem cicatriz. A segunda é a documentação, porque sem instrumento validado aplicado antes e depois não há como saber se funcionou naquela paciente.

O Spectra Medic reúne radiofrequência ginecológica não ablativa, que é a modalidade avaliada no ensaio com sham citado acima, além de radiofrequência fracionada, fotobiomodulação por LED e jato de plasma.

O Kolpos mantém esses módulos e acrescenta a radiofrequência cirúrgica do sistema SpaceFusion. As duas plataformas da Tonemed trabalham com o Sistema ATP, sigla de Automated Thermal Permanence, voltado ao controle automático de tempo, potência e temperatura durante a aplicação, que é a resposta de engenharia para a primeira das duas variáveis acima.

Próximos passos

A síndrome geniturinária da menopausa é crônica e progressiva, e o tratamento precisa continuar para o efeito se manter. Combine isso com a paciente já na primeira consulta: a proposta é manutenção, não um ciclo com data para acabar. Comece por lubrificante e hidratante, explicando a diferença de uso, e reavalie com o mesmo instrumento que você usou na linha de base. A diretriz de 2025 recomenda reavaliar após o início do tratamento sem fixar prazo, e registra que os sintomas começam a melhorar entre um e dois meses.

A escolha da linha depende de gravidade, contraindicação e preferência, e a paciente com câncer de mama ou com recusa ao hormônio é onde o repertório do consultório faz mais diferença. Para aprofundar as alternativas não hormonais, veja o conteúdo relacionado sobre ginecologia regenerativa. Para discutir protocolo, especificações técnicas e registro dos equipamentos, a equipe técnica da Tonemed está à disposição.

 

Revisão técnica

Silene Bazi Ribeiro | CREFITO 89479
Fisioterapeuta Dermatofuncional e pós graduanda em Fisioterapia Pélvica

Referências

  1. Portman DJ, Gass ML; Vulvovaginal Atrophy Terminology Consensus Conference Panel. Genitourinary syndrome of menopause: new terminology for vulvovaginal atrophy from the International Society for the Study of Women's Sexual Health and the North American Menopause Society. Maturitas, 2014;79(3):349-354. DOI 10.1016/j.maturitas.2014.07.013. Acessar fonte
  2. The 2020 genitourinary syndrome of menopause position statement of The North American Menopause Society. Menopause, 2020;27(9):976-992. DOI 10.1097/GME.0000000000001609. Acessar fonte
  3. Kingsberg SA, Wysocki S, Magnus L, Krychman ML. Vulvar and vaginal atrophy in postmenopausal women: findings from the REVIVE survey. Journal of Sexual Medicine, 2013;10(7):1790-1799. DOI 10.1111/jsm.12190. Acessar fonte
  4. Krychman M, Graham S, Bernick B, Mirkin S, Kingsberg SA. The Women's EMPOWER Survey: women's knowledge and awareness of treatment options for vulvar and vaginal atrophy remains inadequate. Journal of Sexual Medicine, 2017;14(3):425-433. DOI 10.1016/j.jsxm.2017.01.011. Acessar fonte
  5. The AUA/SUFU/AUGS Guideline on Genitourinary Syndrome of Menopause. The Journal of Urology, 2025. DOI 10.1097/JU.0000000000004589. Acessar fonte
  6. Simon JA, Nappi RE, Chedraui P, et al. Genitourinary syndrome of menopause (GSM): recommendations from the Fifth International Consultation on Sexual Medicine (ICSM 2024). Sexual Medicine Reviews, 2026;14(1). DOI 10.1093/sxmrev/qeaf055. Acessar fonte
  7. Mitchell CM, Reed SD, Diem S, et al. Efficacy of vaginal estradiol or vaginal moisturizer vs placebo for treating postmenopausal vulvovaginal symptoms: a randomized clinical trial. JAMA Internal Medicine, 2018;178(5):681-690. DOI 10.1001/jamainternmed.2018.0116. Acessar fonte
  8. Garcia de Arriba S, Grüntkemeier L, Häuser M, May TW, Masur C, Stute P. Vaginal hormone-free moisturising cream is not inferior to an estriol cream for treating symptoms of vulvovaginal atrophy. PLOS ONE, 2022. DOI 10.1371/journal.pone.0266633. Acessar fonte
  9. Lethaby A, Ayeleke RO, Roberts H. Local oestrogen for vaginal atrophy in postmenopausal women. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2016. DOI 10.1002/14651858.CD001500.pub3. Acessar fonte
  10. Danan ER, Sowerby C, Ullman KE, et al. Hormonal treatments and vaginal moisturizers for genitourinary syndrome of menopause: a systematic review. Annals of Internal Medicine, 2024;177(10). DOI 10.7326/ANNALS-24-00610. Acessar fonte
  11. U.S. Food and Drug Administration. HHS Advances Women's Health, Removes Misleading FDA Warnings on Hormone Replacement Therapy. Comunicado de 10 de novembro de 2025. Acessar fonte
  12. The Menopause Society. The Menopause Society Comments on the FDA Announcement on Hormone Therapy. 10 de novembro de 2025. Acessar fonte
  13. American College of Obstetricians and Gynecologists. Treatment of Urogenital Symptoms in Individuals With a History of Estrogen-dependent Breast Cancer. Clinical Consensus. Acessar fonte
  14. Mendes MC, Lara LAS, Sá MFS. Síndrome geniturinária da menopausa. Femina, 2020;48(4):198-207. Acessar fonte
  15. Zerzan NL, Greer N, Ullman KE, et al. Energy-based interventions for genitourinary syndrome of menopause: a systematic review. Menopause, 2025;32(2):176-183. DOI 10.1097/GME.0000000000002465. Acessar fonte
  16. Quezada-Bascuñán C, Ferri-Morales A, Martínez-Vizcaíno V, et al. Efficacy of nonablative radiofrequency on sexual function in postmenopausal women: a randomized clinical trial. Menopause, 2026;33(7):810-819. DOI 10.1097/GME.0000000000002743. Acessar