Radiofrequência não ablativa em ginecologia: mecanismo de ação e efeitos no colágeno
Na conversa de corredor, radiofrequência não ablativa costuma virar sinônimo de qualquer aparelho que esquenta. Na prática, o que separa um protocolo que funciona de um que só aquece é entender onde o calor age, em que temperatura, e o que o tecido faz depois.
Este texto trata do mecanismo: como a radiofrequência não ablativa gera calor, o que acontece no colágeno a partir daí, o que as biópsias mostram e o que a evidência clínica sustenta hoje.
O que é radiofrequência não ablativa, e o que ela não é

A diferença para o laser está na origem do calor. O laser depende de cromóforos, moléculas que absorvem um comprimento de onda específico. A radiofrequência não tem afinidade por cromóforo nenhum: ela emite ondas eletromagnéticas e o aquecimento depende apenas das propriedades elétricas do tecido alvo. A corrente encontra resistência, e essa resistência vira calor, o que se chama efeito Joule.
Vale separar três coisas que costumam ser chamadas pelo mesmo nome:
⦁ Não ablativa: o epitélio permanece íntegro. O calor é entregue à camada logo abaixo da mucosa, sem criar ferida.
⦁ Fracionada microablativa: entrega a energia em microcolunas, criando pontos de ablação cercados por tecido intacto. É outra modalidade, com outro perfil de estudo.
⦁ Cirúrgica: usa radiofrequência para cortar e coagular. Mesma física, finalidade completamente diferente.
Dentro da radiofrequência não ablativa ainda existem configurações de eletrodo, monopolar, bipolar e multipolar, e o modo capacitivo e resistivo. As frequências descritas nos estudos de ginecologia variam bastante, de 448 kHz no ensaio com radiofrequência monopolar capacitiva e resistiva a 1 MHz no estudo piloto publicado no BMC Women's Health em 2021.
A janela térmica da radiofrequência não ablativa: por que 40 a 45 graus

Este é o número que mais importa, e ele é consistente entre os ensaios publicados. O estudo de Pinheiro e colaboradores, no BMC Women's Health em 2021, trabalhou com alvo de 41 graus. O ensaio de Fu e colaboradores, no mesmo periódico em 2023, com 102 mulheres e seguimento de 12 meses, usou temperatura controlada entre 40 e 45 graus. O ensaio randomizado com grupo sham publicado na Menopause em 2026 adotou a mesma faixa.
O que acontece nessa faixa está descrito assim na revisão de Luo e colaboradores, publicada na Gynecology and Pelvic Medicine em 2025:
Repare que são dois efeitos em tempos diferentes. A contração é imediata e explica parte da sensação relatada logo após a sessão. A neocolagênese vem depois, e é ela que sustenta o resultado ao longo das semanas.
Uma ressalva honesta, porque ela costuma ser atropelada em material comercial. Os limiares exatos de desnaturação e de necrose em tecido vaginal não estão bem estabelecidos na literatura publicada. Circulam números específicos em textos sem revisão por pares, mas não localizamos estudo que os sustente para essa aplicação. O que está documentado é a faixa terapêutica usada nos ensaios, e o fato de que ela é mantida sob monitoramento como parâmetro central de protocolo e de segurança.
O que acontece no colágeno depois do estímulo
O calor controlado desencadeia uma cascata, e cada etapa tem nome:
Sobre as proteínas de choque térmico, a HSP47 é uma proteína guia específica do colágeno, e sua elevação após hipertermia em fibroblastos foi documentada no British Journal of Cancer em 1997, por Verrico e Moore, tanto em nível de transcrição quanto de tradução. É um trabalho antigo e fora da ginecologia, mas é a base mecanística que os artigos da área citam.
Nos estudos de ginecologia, a descrição é convergente. O piloto do BMC Women's Health de 2021 fala em processo inflamatório agudo com neocolagênese e neoelastogênese a partir da desnaturação de fibras colágenas e ativação de fibroblastos. Revisão publicada na Revista ABPTGIC em 2022 descreve o estímulo térmico ativando proteínas de choque térmico, interleucinas e fator transformador de crescimento, com migração de fibroblastos responsáveis pela síntese de colágeno e elastina.
Aqui vale mais uma ressalva. Não localizamos, na literatura acessível, um número confiável para o tempo até o pico de neocolagênese em tecido vaginal. Prazos citados em material de divulgação não têm respaldo que consigamos rastrear. O que existe é dado de durabilidade clínica, que é outra coisa.
O que as biópsias mostram
Estudo descritivo do grupo da UNIFESP, publicado por Nogueira e colaboradores na Photobiomodulation, Photomedicine, and Laser Surgery em 2024, comparou laser fracionado de CO2, radiofrequência e estrogênio tópico na síndrome geniturinária da menopausa, com 71 mulheres recrutadas e 48 concluindo o protocolo, sendo 15 no braço de radiofrequência. Atrofia vaginal histológica foi identificada em 6 amostras antes do tratamento, ou 12,5% do total, e os autores registram que, depois da intervenção, todos os parâmetros histológicos foram normalizados.
É um achado relevante e precisa ser lido pelo que ele é. A amostra por braço é pequena, o desenho é descritivo, e a normalização relatada vale para o conjunto dos parâmetros avaliados, não para uma medida isolada de densidade de colágeno. Quem procura, na literatura de tecido vaginal, o mesmo nível de detalhe histológico que existe para pele, ainda não encontra.
O que a evidência clínica sustenta
A publicação mais forte para essa modalidade é recente. Meta-análise de Lumowa e colaboradores, no International Urogynecology Journal em 2026, reuniu 8 ensaios randomizados comparando radiofrequência a outras modalidades na síndrome geniturinária da menopausa.
Os valores no Índice de Função Sexual Feminina foram p igual a 0,0005 na comparação com estrogênio vaginal, p igual a 0,01 contra placebo ou hidratante, e p igual a 0,81 contra laser, ou seja, sem diferença entre as duas tecnologias.
No mesmo período, o ensaio randomizado com grupo sham publicado na Menopause em 2026 acompanhou 62 mulheres, 32 tratadas com radiofrequência monopolar capacitiva e resistiva e 30 no sham, com seis sessões semanais. O FSFI subiu 5,86 pontos contra 1,33 no sham logo após o tratamento, e o Índice de Saúde Vaginal subiu 4,75 contra 0,03 negativo, ambos com p menor que 0,001. Em 12 semanas, a diferença se manteve, com 6,90 contra 0,66 negativo no Índice de Saúde Vaginal. Não houve eventos adversos nem alteração significativa da citologia estrogênica.
E aqui entra a contraparte, que precisa estar no texto. A revisão sistemática de Zerzan e colaboradores, na Menopause em 2025, que analisou 32 estudos sobre intervenções baseadas em energia, classifica a evidência do conjunto como incerta e assinala que o relato de eventos adversos permanece limitado entre os ensaios. Perfil de segurança favorável nos estudos publicados não é o mesmo que segurança bem estabelecida, e a diferença entre as duas frases importa na conversa com a paciente.
O que isso muda na escolha do equipamento de radiofrequência não ablativa
Se a faixa terapêutica é estreita e o efeito depende de manter o tecido dentro dela pelo tempo certo, a variável de compra deixa de ser potência e passa a ser controle. A pergunta para o fabricante é direta: como o sistema mede e mantém a temperatura durante a aplicação, e o que ele faz quando a faixa alvo é ultrapassada.
As plataformas Spectra Medic e Kolpos, da Tonemed, trazem o módulo de radiofrequência ginecológica não ablativa e trabalham com o Sistema ATP, sigla de Automated Thermal Permanence, voltado ao controle automático de tempo, potência e temperatura durante a aplicação. É a resposta de engenharia para o problema descrito acima, e o que permite chamar de protocolo aquilo que a equipe repete entre pacientes.
Próximos passos
Antes de definir o protocolo, defina o desfecho. Se a proposta é melhorar função sexual, o instrumento é o FSFI. Se é trofismo da mucosa, é o Índice de Saúde Vaginal. Aplique na linha de base e repita o mesmo no seguimento, porque é isso que transforma impressão clínica em resultado comparável.
Para o contexto mais amplo dessa linha de tratamento, veja o conteúdo relacionado sobre ginecologia regenerativa e sobre síndrome geniturinária da menopausa. Para discutir parâmetros, especificações técnicas e registro dos equipamentos aplicados à sua realidade clínica, a equipe técnica da Tonemed está à disposição.
Revisão técnica
Silene Bazi Ribeiro | CREFITO 89479
Fisioterapeuta Dermatofuncional e pós graduanda em Fisioterapia Pélvica
Referências
- Lumowa FSR, Kurniawati EM, Hardianto G. Efficacy and safety of radiofrequency as a treatment modality for genitourinary syndrome of menopause: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. International Urogynecology Journal, 2026. DOI 10.1007/s00192-026-06818-x. Acessar fonte
- Quezada-Bascuñán C, Ferri-Morales A, Martínez-Vizcaíno V, Gallego-Gómez C, Torres-Costoso A, Lirio-Romero C. Efficacy of nonablative radiofrequency on sexual function in postmenopausal women: a randomized clinical trial. Menopause, 2026;33(7):810-819. DOI 10.1097/GME.0000000000002743. Acessar fonte
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- Nogueira MCC, Bianchi-Ferraro AMHM, Campos MLP, et al. Fractional and microablative CO2 laser and radiofrequency in the treatment of genitourinary syndrome of menopause: a descriptive study. Photobiomodulation, Photomedicine, and Laser Surgery, 2024;42(6):414-421. DOI 10.1089/pho.2023.0110. Acessar fonte
- Luo C, Wei D, Yu X, Chen Y. Application progress of radiofrequency therapy in pelvic floor disorders: a narrative review focusing on randomized controlled trials. Gynecology and Pelvic Medicine, 2025;8. DOI 10.21037/gpm-25-36. Acessar fonte
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- Verrico AK, Moore JV. Expression of the collagen-related heat shock protein HSP47 in fibroblasts treated with hyperthermia or photodynamic therapy. British Journal of Cancer, 1997;76(6):719-724. DOI 10.1038/bjc.1997.452. Acessar fonte
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